Para Refletir

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quarta-feira, 2 de março de 2016

Pergunta-me



Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

- Mia Couto -
Do livro "Raiz de Orvalho e outros poemas"

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Nosso beijo


Sónia Costa - Fotografia
"E quando nos beijávamos... E eu perdia a respiração e, entre suspiros, perguntava: Em que dia nasceste? E me respondias com voz tremula: Estou nascendo agora..."
Mia Couto

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

As 16 árvores mais magníficas do mundo

"Árvore
cego
de ser raiz
imóvel
de me ascender caule
múltiplo
de ser folha
aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo"
Mia Couto

Link do artigo: http://www.raizesjornalismocultural.com/portalraizes/index.php/secoes/meio-ambiente/627-as-16-arvores-mais-magnificas-do-mundo

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Fotografias


"Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias..."

MIA COUTO in Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra

sábado, 3 de outubro de 2015

sábado, 4 de dezembro de 2010

JESUSALÉM

«A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado.»

Diz a poeta Alejandra Pizarnick: “Yo me levanté de mi cadáver, e fui em busca de quien soy. Peregrina de mí…” No romance, pelo contrário, não se busca a identidade, não se procura o “eu”, quer-se, isso sim, matar a memória, esquecer o mundo vivido, e invocar uma nova ordem que se fundamente no silêncio. Um silêncio com um Deus que Hilda Hilst alvitra como “ O Deus de que vos falo ⁄ Não é um Deus de afagos ⁄ É mudo. ⁄ Está só…”. Mas é em Sophia de Mello que está o canto primeiro e último, a voz iniciática em “Sou o único homem a bordo do meu barco. ⁄ Os outros são monstros que não falam, ⁄ Tigres e ursos que amarrei aos remos, ⁄ E o meu desprezo reina sobre o mar. ”, e o canto último em “ Nunca mais amarei quem não possa viver ⁄ Sempre, ⁄ Porque eu amei como se fossem eternos ⁄ A glória, a luz e o brilho do teu ser, ⁄ Amei-te em verdade e transparência ⁄ E nem sequer me resta a tua ausência, ⁄ És um rosto de nojo e negação ⁄ E eu fecho os olhos para não te ver. ⁄ Nunca mais servirei senhor que possa morrer.” Está dito. O anátema a uma realidade cruel, predadora, que nos desumaniza com discursos envenenados, máquinas trituradoras de boas consciências com a efemeridade de sonhos adocicados, é sinal de busca de outros horizontes que a nossa consciência, liberta das cartilhas castralizadoras da história, nos vai ditar nessa longa viagem pelo interior de nós mesmos.

“Profundamente abalado pela morte da mulher, Dordalma, aquela que era “um bocadinho mulata”, Silvestre Vitalício afasta-se da cidade e do mundo. Com os dois filhos Mwanito e Ntumzi, mais o criado ex-militar Zacarias Kalash, faz-se transportar pelo cunhado Aproximado para o lugar mais remoto e inalcançável. Aí, numa velha coutada de caça em ruínas, funda o seu refúgio, a que dá o nome de Jesusalém, porque a vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado”.

É assim, deste modo singelo, que Mia Couto inicia este romance intitulado “Jesusalém”. “Jesusalém é o nome que este personagem, Eugénio Vitalício, dá a este lugar que é uma espécie de refúgio, é um lugar de exílio de um homem que está em rotura consigo próprio, tentando afastar-se do seu próprio passado, de modo a esquecê-lo”.

“Como nós todos sabemos vivemos numa amnésia colectiva sobre o nosso passado recente. Vivemos uma situação gravíssima de uma guerra civil que constituiu um luto profundo em toda a nossa sociedade e hoje esquecemo-nos disso.

Mesmo que coloquemos uma pedra sobre esse passado ele está lá. E é bom que saibamos revisitar esse tempo, é bom voltar a lembrarmo-nos de um tempo que foi profundamente nosso mesmo que tenha sido pela negativa, porque esse tempo faz parte da nossa história, temos que ter um convívio saudável com ele”, concluiu o autor.

Este livro é uma espécie de parábola sobre a impossibilidade de se fugir do mundo. Quando o velho tenta escapar com a família para um sítio remoto, longe de tudo e de todos, cria para os filhos a ideia que o mundo acabou, que eles são os únicos sobreviventes da humanidade, e, obviamente, que, volvidos uns anos, este mundo, que é um mundo totalitário, totalizante, concentraccionário acaba por invadir esse espaço mostrando que há uma maneira muito agressiva e revelando que no fim há outra história.

Este Jesusalém ensina-nos que nesta selva de desigualdades, de alienação global, de homogeneização de ambições mesquinhas e terrenas, o grande desafio está em abrir até aos limites a grande coutada da vida: a nossa consciência.